segunda-feira, 17 de março de 2014

CRISTO, ÁGUA PARA NOSSA SEDE

3º DOMINGO DA QUARESMA – ANO A – 2014

Êxodo 17,3-7 – Romanos 5,1-2.5-8 – Jo 4,5-42


Na primeira leitura aparecem os nomes Massá e Meribá, que em hebraico querem dizer tentação e discussão. O povo foi tentado a discutir a vontade divina, a não concordar com o projeto de libertação. No começo da caminhada era a festa, pois tinham consigo água e comida que tinham trazido do Egito. Depois, tudo foi se acabando. Assim pode acontecer conosco, no início da caminhada da fé. Temos motivações, somos acolhidos, não há dificuldades. Porém, no percurso da caminhada aparecem os desafios. Surgem então o desânimo, a vontade de largar tudo, de voltar para a segurança das atividades pessoais… Deus não reage com castigos aos que assim se comportam. Ele conhece a fragilidade humana e de como é difícil manter forte a chama da fé diante das dificuldades. Por isso ele vem em socorro do povo que reclama.

Paulo, na 2ª leitura, lembra que Deus não age de forma a retribuir somente a quem lhe agrada. O amor de Deus é imenso, e é derramado sobre todos. Por isso Paulo diz que nossa esperança não se funda em nossas obras e nem o amor de Deus a nós depende delas. Infelizmente os seres humanos são tentados a amar somente a quem lhes agrada. Deus não age como ser humano, o seu amor independe do que façamos. Por isso Deus mandou seu Filho ao mundo quando ainda éramos pecadores. Daí a necessidade de aprendermos a viver a partir do amor divino. Não fazemos boas obras para termos recompensas, mas agimos no amor por somos amados por Deus e isso basta.

A samaritana, apresentada no Evangelho ao lado de um poço, representa a caminhada de toda pessoa no crescimento da prática do amor. Antes  de encontrar Jesus, ela está preocupada com seus problemas pessoais. Quando o Filho de Deus se aproxima, ele fala provavelmente dos problemas do dia a dia. Essa é a forma da evangelização de Jesus – ir ao encontro das pessoas que sofrem. Assim surge o assunto religião e a catequização que Jesus faz: Ele apresenta a verdadeira forma de adorar a Deus e deixa-se reconhecer como o Messias, o Salvador. Só então ele propõe a ela o batismo na verdadeira água – água da vida – que jorra a parte do amor divino. Então a vida daquela mulher se transforma e ela se torna missionária – missão nada mais é que testemunhar para o mundo a alegria do verdadeiro encontro com Jesus, o Filho de Deus, nosso Salvador! A samaritana, depois de encontrar o “salvador do mundo” que traz a água que mata a sede de felicidade, não se fechou em casa a gozar a sua descoberta; mas partiu para a cidade, a propor aos seus concidadãos a verdade que tinha encontrado. Como ela, somos chamados a sermos testemunhas vivas dessa vida nova que encontramos em Jesus!

segunda-feira, 10 de março de 2014

O RISCO DA FÉ

2° DOMINGO DA QUARESMA - ANO A - 2014

Gênesis 12,1-4 – 2 Timóteo 1,8b-10 – Mateus 17,1-9

A figura de Abraão questiona as comunidades isoladas e comodistas, que preferem apostar na segurança de suas conquistas, em vez de arriscar na novidade de Deus, ou deixar que a Palavra de Deus as coloque a caminho do encontro de outras comunidades necessitadas de ajuda evangelizadora.

A carta a Timóteo  diz que não é fácil ser testemunha de Deus e do seu projeto. O mundo de hoje tende a ignorar os apelos de Deus ou até manifesta desprezo pelos valores do Evangelho e por aqueles que o pregam. No entanto, as dificuldades não podem ser uma desculpa para nos demitirmos das nossas responsabilidades e de levarmos a sério a vocação a que Deus nos chama para a missão.

Já o Evangelho situa novamente Jesus sobre um monte (montanha). As bem-aventuranças são pronunciadas sobre um monte. Pães são multiplicados sobre um monte. Na Bíblia, montanha ou monte sempre é o lugar do encontro com o Sagrado. Para que nós também sejamos transfigurados – nos tornemos novas criaturas – precisamos ir ao encontro de Deus, que acontece na participação litúrgica, na leitura diária da Bíblia e na prática do amor e da caridade. A partir destes encontros escutamos Jesus – ordem do Pai – e somente assim poderemos obedecê-Lo.. A mudança do rosto e as vestes de brancura resplandecente recordam o resplendor de Moisés, ao descer do Sinai (cf. Ex 34,29), depois de se encontrar com Deus e de ter as tábuas da Lei – mandamentos que devemos obedecer. A nuvem, por sua vez, indica a presença de Deus: era na nuvem que Deus manifestava a sua presença, quando conduzia o seu Povo através do deserto (cf. Ex 40,35; Nm 9,18.22; 10,34).

Os três discípulos, testemunhas da transfiguração, parecem não ter muita vontade de “descer à terra” e enfrentar o mundo e os problemas dos homens. Representam todos aqueles que vivem de olhos postos no céu, alienados da realidade concreta do mundo, sem vontade de intervir para o renovar e transformar. No entanto, ser seguidor de Jesus obriga a “regressar ao mundo” para testemunhar aos homens – mesmo contra a corrente – que a realização autêntica está no dom da vida; obriga ater os pés sujos de lama – como diz o Papa Francisco -, nos problemas e dramas do mundo atual, a fim de dar o nosso contributo para o aparecimento de um mundo mais justo e mais feliz. A religião não é  uma prática que anestesia a pessoa das dores do dia a dia,  mas um compromisso com Deus, que se faz compromisso de amor para uma prática geradora da justiça e da paz, principalmente para os que sofrem.

Sai da tua Terra, é o convite de Deus a Abraão. Não tenhas medo de evangelizar, é o convite de Paulo a Timóteo. Subam comigo e desçam comigo, é o convite de Jesus a todos nós, para que saiamos do pequeno mundo dos nossos interesses pessoais e nos coloquemos a caminho do encontro com Deus e do encontro com o próximo.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

PROPOSTA DE DEUS, RESPOSTA DO HOMEM

TEMPO DA GUARESMA - ANO A 2014 - 1º DOMINGO DA QUARESMA

Genesis 2, 7-9; 3,1-7 - A 1ª leitura afirma que Deus criou o homem para a felicidade e para a vida plena. Quando escutamos as propostas de Deus, conhecemos a vida e a felicidade; mas, sempre que prescindimos de Deus e nos fechamos em nós próprios, inventamos esquemas de egoísmo, de orgulho e de prepotência e construímos caminhos de sofrimento e de morte. A ideia da leitura é esta:Deus criou o homem para ser feliz; deu-lhe a possibilidade de vida imortal; mas o homem pode escolher prescindir de Deus e percorrer caminhos onde Deus não está. Em conclusão: Deus criou o homem para ser feliz e indicou-lhe o caminho da imortalidade e da vida plena; no entanto, o homem escolhe muitas vezes o caminho do orgulho e da arrogância e vive à margem de Deus e das suas propostas. Na opinião do autor, é essa a origem do mal que destrói a harmonia do mundo.

Romanos 5,12-19 – A 2ª leitura propõe-nos dois exemplos: Adão e Jesus. Adão representa o homem que escolhe ignorar as propostas de Deus e decidir, por si só, os caminhos da salvação e da vida plena; Jesus é o homem que escolhe viver na obediência às propostas de Deus e que vive na obediência aos projetos do Pai. O esquema de Adão gera egoísmo, sofrimento e morte; o esquema de Jesus gera vida plena e definitiva. Cristo propôs outro caminho. Ele viveu numa permanente escuta de Deus e das suas propostas, na obediência total aos projetos do Pai. Esse caminho leva à superação do egoísmo, do orgulho, da auto suficiência e faz nascer um Homem Novo, plenamente livre, que vive em comunhão com o Deus que é fonte de vida autêntica (a vitória de Cristo sobre a morte é a prova provada de que só a comunhão com Deus produz vida definitiva). Foi essa a grande proposta que Cristo fez à humanidade. 

Mateus 4,1-11 – O Evangelho apresenta, de forma mais clara, o exemplo de Jesus. Ele recusou – de forma absoluta – uma vida vivida à margem de Deus e dos seus projetos.

ASPECTOS A SEREM CONSIDERADOS NA REFLEXÃO –

São Paulo, hoje nos propõe dois exemplos: Adão e Jesus, deixando evidenciar a centralidade de Cristo na história da salvação. Adão representa o homem que escolhe viver sozinho e ignora as propostas de Deus. Jesus é o homem que vive na obediência às propostas de Deus. A escolha do homem-Adão gera egoísmo e morte; o caminho do homem-Jesus vida plena e definitiva. A lei sozinha é insuficiente para restaurar a comunhão com Deus: o homem por si mesmo não pode se levantar da queda. Exatamente por isso São Paulo, comparando o significado da ação de Adão e a eficácia da ação de Cristo, demonstra a absoluta superabundância do dom de Deus. Jesus testemunha que uma vida que ignora os projetos do Pai e aposta unicamente nos esquemas de realização pessoal é uma vida perdida e sem real sentido. Somente a amizade divina e a obediência à sua lei nos tornam felizes. Preparemo-nos generosamente para uma renovação interior nesta Quaresma, pela fidelidade às promessas do nosso Batismo. Entrar na Quaresma significa começar um tempo de compromisso particular no combate espiritual que nos opõe ao mal, presente no mundo, em cada um de nós e à nossa volta. Significa renovar a decisão pessoal e comunitária de enfrentar o mal junto com Cristo e dispor-se a lutar contra seus efeitos, sobretudo contra suas causas, até a causa última, que é satanás. Estes são os objetos das três tentações sofridas por Jesus: na primeira tentação, trata-se de fazer Jesus enveredar pelo caminho das esperanças materialistas do povo que esperava um messias que lhes trouxesse bem-estar material, riqueza, prosperidade, fertilidade, pão e prazer; na segunda tentação, aquele “lança-te para baixo”, constitui um apelo à esperança de Israel de um messias que descesse do céu de modo espetacular, à vista do povo – Jesus, porém, renuncia decididamente à fácil tentação de ser um messias milagreiro e espetacular, dizendo um decidido não a uma ação na base do triunfo pessoal, do êxito puramente humano; na terceira tentação, aparece diante de Jesus a sedução de se mover na linha da esperança popular num messianismo político, vitorioso, dominador dos romanos e do mundo inteiro, redução do Reino de Deus a um reino temporal, dependente só de homens.

RELACIONANDO A LITURGIA COM A CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2014

As tentações do dinheiro fácil – prazer -, do luxo – sinais de riqueza – e do poder é que atraem os traficantes e a maioria das vítimas do tráfico humano. As vítimas do tráfico, em geral, são mulheres e adolescentes entre 15 e 25 anos, de cidades de todas as regiões do Brasil.  Os principais destinos são a Europa e a América Latina. As vítimas são de famílias numerosas e pobres e tem passagem pela prostituição. Na maioria das vezes, mulheres e crianças são levadas para fora do país, aonde são prostituídas, violentadas e vendidas por preços altos. A face mais visível do problema é o turismo sexual e também, a venda de órgãos, adoção ilegal, pornografia infantil, às formas ilegais de imigração com vistas à exploração do trabalho em condições iguais à escravidão, ao contrabando de mercadorias, contrabando de armas e tráfico de drogas. Não é novidade que, tentadas pelo discurso do dinheiro fácil, pessoas sejam tiradas das periferias do Brasil e levadas para a Europa e os EUA. 

RELACIONANDO A LITURGIA COM O NOSSO OBJETIVO – A FAMÍLIA

Aspectos mundanos produzem a ânsia do consumo levando muitos pais a viverem só para si mesmos e para o trabalho, deixando os filhos aos cuidados de instituições ou de terceiros. Em muitos casos, os que recorrem às drogas ou ao álcool o fazem para fugir de situações de carência de autoestima, falta de carinho, que gera a solidão.O distanciamento dos pais  e a solidão tem levado um número cada vez maior de crianças e adolescentes à dependência química, à busca de compensações eróticas ou outros tipos de desvios. O abandono atinge mesmo os mais favorecidos.É preciso que a Pastoral Familiar, a catequese e todas as pastorais, trabalhem estreitamente unida com a Pastoral da Sobriedade. Há também situações em que a carência de meios materiais leva à opção, sempre errada, de buscar uma solução para os problemas no tráfico. Isso, habitualmente, acaba por levar também ao consumo das mesmas drogas. 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

AMAR ATÉ OS INIMIGOS

VII DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A

Lv 19,1-2.17-18 – Sl 102 – 1 Cor 3,16-23 – Mt 5,138-48


O mandamento do amor ao próximo não era desconhecido antes de Jesus. De fato, no Antigo Testamento nunca se havia pensado em amar a Deus sem se interessar pelo próximo (1ª leitura). Nos Provérbios encontra-se até uma passagem que ressoa quase com as mesmas palavras do mandamento de Cristo: “Se teu inimigo tem fome, dá-lhe de comer; se tem sede dá-lhe de beber...” Mas é necessário acrescentar que a frase surge ali inteiramente isolada das demais.

Um mandamento paradoxal

Em sua formulação, em se conteúdo em sua forte exigência, o mandamento de Jesus é novo e revolucionário. É novo pelo se universalismo, por sua extensão em sentido horizontal: não conhece restrições de classe, não leva em conta exceções, limitações, raça, religião; dirige-se ao homem nas unidade e na igualdade de sua natureza. É novo pela medida, pela intensidade, por sua dimensão vertical. A medida é dada pelo próprio modelo que nos é apresentado: “Dou-vos um mandamento novo, que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei, assim amai-vos uns aos outros”. A medida de nosso amor para com o próximo é, pois, o amor que Cristo tem por nós; ou melhor, o mesmo amor que o Pai tem por Cristo: porque “Como o Pai me amou também eu vos amei”. Deus é amor e nisto se manifestou o seu amor: ele nos amou primeiro e enviou seu Filho para expiar nossos pecados. É novo pelo motivo que nos propõe: amar por amor de Deus, pelas mesmas finalidades de Deus; exclusivamente desinteressado; com amor puríssimo; sem sombra de compensação. Amar-nos como irmãos, com um amor que procura o bem daquele a quem amamos, não o nosso bem. Amar como Deus, que não busca o bem na pessoa a quem ama, mas cria nela o bem, amado-a. É novo porque Cristo o eleva ao nível do próprio amor de Deus. Se a concepção judaica podia deixar crer que o amor fraterno, se põe no mesmo plano dos outros mandamentos, a visão cristã lhe dar um lugar central, único. No Novo testamento o amor do próximo está indissoluvelmente ligado ao preceito do amor de Deus.

Temos inimigos a perdoar?

“A fé... lembra ao cristão os mandamentos de Deus e proclama o espírito das bens-aventuranças; convida a ser paciente e bondoso, a eliminar a inveja, o orgulho, á maledicência, a violência; ensina a tudo crer, tudo esperar, tudo sofrer, porque o amor nunca passará”.Mas insiste ainda: “Ama teu inimigo..., oferece a outra face...Não pagues co o mal o mal”. Quantos cristãos fizeram da palavra de Jesus a lei da sua vida! Q eu perdoa, Poe amor de Cristo crucificado, o assassino do seu irmão; pais que esquecem heroicamente ofensas recebidas dos filhos; esposos que superam as ofensas e culpas; homens políticos que não conservam rancor pelas calúnias, difamações, derrotas; operários que ajudam o companheiro de trabalho que tentou arruiná-los etc...

Não devemos também pedir perdão?

Em nome da religião e de Cristo, os cristãos se dividiram , dilacerando assim o corpo de Cristo. Viram no irmão um inimigo, se “excomungaram” reciprocamente, chamando-se hereges, queimando, queimando livros e imagens... Derramou-se sangue, explodiu ódio em guerras de religião. O orgulho, o desprezo e a falta de caridade caracterizaram as diatribes teológicas e os escritos apologéticos. Os inimigos de Deus e da Igreja, da religião combatidos com armas e com ódio. Travaram-se lutas, organizaram-se cruzadas. Hoje, a Igreja superou, ou encaminha para superar, muito dessas limitações. Não mais hereges, mas irmãos separados; não há mais adversários, mas interlocutores; não consideramos mais o que divide, mas antes de tudo o que une; não condenamos em bloco e a priori as grandes religiões não cristãs, mas nelas vemos autênticos valores humanos e pré-cristãos que nos permitem entrar em diálogo. Mas a intolerância e a polêmica estão sempre de atalaia. Não estaremos acaso usando dentro da própria Igreja, aquela agressividade e polêmica excessivas que outrora usávamos como os de fora da Igreja, aquela  agressividade e polêmica excessivas que outrora usávamos com os de fora da Igreja? Quantos cristãos engajados, uma vez faltando o alvo de fora, começaram a visar como “inimigos” os próprio irmãos na fé, e os combatem obstinadamente, sem amor! E  sem perdão!

sábado, 8 de fevereiro de 2014

HOMENS, LUZ DO MUNDO

V DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A

(Is 58,7-10 – SL 111 – Cor 2,1-5 – Mt 5, 13-16)

O trecho evangélico está no contexto das bem-aventuranças. Os que são proclamados bem-aventurados, não o são só par si mesmos, mas também perante o mundo; para a realidade terrestre são luz e sal. “Vós sois a luz do mundo”; Jesus disse estas palavras em primeiro lugar para os que crêem, os discípulos que são os pobres, os mansos, os que têm fome e sede de justiça... São luz não porque pertencem á Igreja, ou porque tenham uma doutrina de salvação a comunicar, nem porque são homens de oração e fiéis ao culto; mas, em primeiro lugar, porque são pobres, mansos, puros de oração...

Vejam vossas boas obras

A 1ª leitura acentua, Ao povo hebreu, preocupado com a prática exterior e irrepreensível do culto, atarefado em reconstruir o templo destruído, Deus lembra que, mais do que o esplendor do culto, o que lhe agrada é que hospedem os desabrigados, dividam o pão com o faminto...”Então a tua Liz romperá como aurora”. Não basta rezar e jejuar, A oração e o jejum devem ser acompanhados da ação, “para fazer brilhar a luz nas trevas”, A abstinência do alimento vale pouco se não for para nutrir o faminto. Como pode o discípulo, concretamente, tornar-se “sal da terra e luz do mundo”, está dito também claramente no evangelho quando conclui: “Vejam as vossas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus”. Não são as palavras que dão testemunho da vinda do reino de Deus, mas a pratica da vida, o comprometer-se em tarefas construtivas. O discípulo deve misturar-se, penetrar profundamente no mundo para dar-lhe o sabor novo, o fermento de salvação trazido por Cristo.
No rito do batismo, o sacerdote entrega ao pai do batizado uma vela acesa no círio pascal. Cristo ressuscitado é a “luz”. O batizado é o “iluminado” que se insere na morte-ressurreição de Cristo. Viver a luz é da luz e o compromisso que o espera: o Espírito o “move”, o “arrasta”. As “obras da luz” são obra do Espírito através da fragilidade do homem. Não há lugar para presunção, vanglória, soberba.

Onde está hoje a luz que salva?

O evangelho fala de sal insípido, que “para nada serve senão ser lançado fora e pisado pelos homens”. Fala-se de luz escondida “sob o alqueire”. É em convite a “provar” a qualidade do nosso sal de cristãos de hoje, e a ver com que obstáculos ocultamos a luz do evangelho. A firmeza de Isaías não nos permite gracejar ou complicar com sutilezas a palavra de Deus.
Ainda hoje contam-se ás centenas de milhões os famintos no mundo, e estão sempre aumentando, conseqüência de uma lógica férrea, própria de um sistema econômico desumano, que acumula riqueza cada vez maiores nas mãos dos que estão fartos e despoja inexoravelmente os miseráveis. O embaraço ainda se torna maior quando lançamos um olhar sobre o mapa da fome, da miséria e da opressão “tradicionalmente cristãos” estão no auge da riqueza, da opulência. 

Sinal ou barreira

Surge então a pergunta se também nós, cristãos, não apoiamos um sistema injusto e opressor dos fracos e dos pobres. A pobreza do Terceiro Mundo e as estatísticas do subdesenvolvimento não se explica pela recusa da técnica, ou pela preguiça congênita e irremediável, mas pela secular exploração das matérias-primas, pela submissão forçada a uma raça, pelo comércio internacional baseado na intimidação ou na boicotagem, nas “ajudas” internacionais como modo de desfazer-se utilmente de mercadorias inúteis. Fica então uma interrogação: será que a luz de Cristo ainda ilumina este “mundo” ou, ao contrario, ilumina só um “mundo futuro”, para qual devemos caminhar como um êxodo? A comunidade cristã de hoje corre o risco de ocultar atrás de pesadas barreiras a luz de Cristo. A não-consciência da solidariedade no testemunho, o desinteresse por uma expressão comunitária da nossa fé, a política de se lavar as mãos quanto aos fatos em que não estão em jogo os nossos interesses, a intervenção ingênua em defesa da “ordem constituída” impedem ás nossa comunidades eclesiais de fazer ver a luz. É necessária uma continua reflexão a fim de que as estruturas não se tornem barreira ou contratestemunho da nossa Igreja. E a reflexão deve torna-se ação como sabedoria e eficácia, para não destruir nada de válido, para fazer brotar as sementes de bem que existem por toda parte e que esperam um bom terreno, um cultivo cuidadoso e o confiante recurso ao auxílio decisivo de Deus.


“LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO...”

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

III DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A

JESUS, LUZ DO MUNDO

Is 8,23b- 9,3 – Sal 26 – 1 Cor 1,10-13.17 – Mt 4,12-23

A luz é uma das necessidades primordiais do homem. Não é apenas um elemento necessário á vida, mas como que a imagem da própria vida. Isso influi profundamente na linguagem para qual “ver luz”, “vir luz” significa nascer; “ver a luz do sol” é sinônimo de viver... Ao contrário, quando um homem morre, diz-se que se “apagou”, que ‘fechou os olhos á luz “... A Bíblia usa esta palavra como símbolo da salvação. O salmo responsorial põe a luz em estreita relação com a salvação. ”O Senhor é minha luz e minha salvação”. “Deus é luz e nele não há trevas”. “Habita uma luz inacessível. Em Jesus. A luz de Deus vem brilhar sobre a terra: “Veio ao mundo á luz verdadeira que ilumina todo homem”. “Eu como luz vim ao mundo, para que o que crê em mim não permaneça nas trevas”
Passar das trevas á luz
Arrancando ás trevas do pecado e imerso na luz de Cristo, através do batismo, o cristão deve fazer as obras da luz: “Se outrora éreis treva, agora sois luz no Senhor. Comportai-vos, pois, como filhos da luz”. A passagem das trevas á luz é conversão, a entrada no reino de Deus. Sabemos o que quer dizer converte-se e fazer penitência. Indica mudança radical da nossa vida, uma inversão na escala dos valores que o mundo propõe e das nossas preocupações cotidianas, que não são certamente os que o evangelho propõe no sermão da montanha. O reino de Deus está presente ou desaparece, aproxima-se ou distancia conforme a nossa vontade de conversão. Esta, por seu lado, jamais se pode considerar completa de uma vez para sempre, mas é uma tensão cotidiana. Assim como a fidelidade não é algo que se adquiri no momento da promessa, mas uma realidade a viver cada minuto. Por outro lado, o cristão, mesmo depois do batismo, nunca é pura luz, é um misto de luz e trevas; por isso, sua vida é luta. Mas Cristo o reveste das armas da luz. Assim, o cristão está seguro de que depois de ter “participado na terra da sorte dos santos na luz” “brilhara como o sol no reino do Pai” e “na sua luz verá a luz. João Batista e Cristo resumem sua pregação no convite á conversão: judeus, que ouviam este anúncio formulava muitas vezes objeções: Nós somos filhos de Abraão, vivemos na segurança de um povo escolhido por Deus, temos as instituições religiosas que nos garantem a possibilidade de observar a Lei. Não temos necessidade de converter-nos.
Evangelização é Luz
Esta é, muitas vezes inconscientemente, a atitude de grande número de cristãos, para os quais a palavra conversão parece estranha, distante aplicável somente a quem “vive nas trevas do erro e do pecado”... A evangelização cristã começa em Cafarnaum como anúncio de Jesus: “Convertei-vos”. Este anúncio deve ressoar continuamente também em nossas comunidades tradicionais. Hoje estamos redescobrindo a necessidade de uma volta á evangelização. Nossa pastoral do passado considera-a consumada, e se limitava quase exclusivamente à catequese. Agora percebemos que isto não é mais suficiente.
Conversão é luz
Como Cristo, também a Igreja deve, hoje como sempre, empenhar-se em libertar o homem do pecado, pois o anúncio da conversão é o fim primário que justifica sua própria existência. Nela deve manifestar-se constantemente a liberdade do Espírito no serviço recíproco, no reconhecimento e na coordenação dos dons que Deus faz a cada um dos fiéis, e assim deveria ser, diante do mundo o sinal visível do reino de Deus na terra. Por isto, a Igreja como instituição também e continuamente interpelada e julgada pela palavra de Deus. Também ela está em estado de conversão permanente. O cristão que, “movido pelo Espírito, está atento e dócil á palavra de Deus, segue um itinerário de conversão para ele... que Poe comportar, ao mesmo tempo, a alegria do encontro e a contínua exigência de ulterior busca; o arrependimento pela infidelidade e a coragem de recomeçar; a paz da descoberta e ânsia de novos conhecimentos; a certeza da verdade e a constante necessidade de nova luz”.
Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

IV DOMINGO DO TEMPO DO ADVENTO - ANO A

IV DOMINGO DO TEMPO DO ADVENTO  - ANO A

O EMANUEL, DEUS CONOSCO 

Através da pregação e da liturgia a Igreja continua a repetir ao homem que a verdadeira e definitiva salvação é um dom que o próprio Deus nos traz vindo a nós. O ponto central da liturgia deste domingo é a revelação desse segredo, desse mistério escondido durante séculos: a manifestação do plano salvífico quer Deus preparou e realizou Poe amor dos homens. Esse desígnio de salvação tem uma história e tem sinais reveladores.
O profeta anuncia um sinal que só pode ser reconhecido e acolhido na pobreza e humildade da fé. Fala do nascimento miraculoso do Emanuel, filho da virgem, sinal concedido por Deus ao pequeno “resto” dos féis que, pela fé nele, apesar dos esforços dos inimigos, serão libertados (1ª leitura). Esse será o novo povo constituído da ordem da fé e não em virtude de privilégios nacionalistas ou de casta.
Filho de Davi, Filho de Deus
A história da salvação tem seu plano de desenvolvimento. Concebido na mente de Deus antes do inicio dos tempos, prenunciado a Adão e Eva após a queda, foi iniciado com a escolha de um homem (Abraão) e de um povo (o povo eleito); quando chegou a plenitude dos tempos foi realizado pela vinda de Cristo, o filho da Davi. Dizer que Cristo é filho de Davi quer dizer reconhecer sua pertença a Israel; lembrar da realidade marcada pela derrota, como foi a história da salvação tem agora o seu “Messias” capaz de ampliar essa história, incluindo as nações (2ª Leitura). Crer, hoje, no filho de Davi, constituído Filho de Deus, significa aceitar que á história não e estranha á construção da Igreja; é ela a linguagem que Deus quis usar para continuar-se com os homens; ele se serve dos acontecimentos do homem, mesmo quando parecem instrumentos indóceis, como Davi e seus sucessores, para realização do seu plano. Significa ainda crer que a missão do cristão tem uma face profundamente humana, não é desencarnada; é tecida de cultura e de história, precisamente porque Deus desceu para se encontrar com o homem em sua carne, nesta terra.
Um Deus que pede
Nesse grande plano, a liturgia de hoje recorda a profecia de Isaías: a realização dessa promessa em seus primeiros passos, que depois da obediência de José, verão o “sim” de Maria e a encarnação do Filho de Deus (evangelho). Trata-se de um plano de bondade no qual a iniciativa é sempre de Deus.
- É o Filho de Deus que vem (não um homem qualquer).
- Vem de uma virgem, sem o concurso de um homem.
- É ele que quer estar conosco: Deus conosco.
O plano de Deus se encontra com a vontade e a colaboração humana: José e Maria. Maria é filha e a flor de toda humanidade, o vértice de toda atitude religiosa; José é o homem “justo”, não daquela justiça legal que quer ficar ao lado da lei repudiando a noiva, nem da justiça que o impede de se aproximar dos méritos de uma ação de Deus na vida e na vocação de seu Filho.
Um anjo intervém para dizer-lhe que Deus tem necessidade dele: é verdade que a concepção é obra do Espírito Santo, mas, José deve contribuir para que o menino entre na descendência de Davi.
Um Deus de homens
 O sinal do Emanuel tem sua perfeita realização em Jesus Cristo,
“sacramentado do encontro entre Deus e o homem”, cuja presença na eucaristia e nas ações litúrgicas é o novo “sinal”, oferecido aos que aceitam ter plena confiança em Deus Pai. A salvação do homem não depende, exclusivamente, de sua iniciativa soberana de Deus: o homem não deve esperá-la passivamente; Deus não salva o homem sem sua cooperação. Deus respeita o homem como respeitou a liberdade de Maria e José, mas seu dom é sempre total.
Em Jesus é a onipotência divina que assume os sofrimentos de um mundo que evolui e de homens pecadores; é a onipotência divina que, em Jesus, cura os enfermos e ultrapassa os limites da nossa morte. O cristão, embora encontrado na criação o mistério da força do amor, com qual Deus se deixou envolver tão intimamente pelas nossas situações, assumir toda a fraqueza que nos aflige, tornando se frágil como uma criança destinada a morrer.