segunda-feira, 3 de novembro de 2014

"O ZELO POR SUA CASA ME DEVORA



Leituras: Ezequiel 47,1-2.8-9.12; Salmo 45; 1Coríntios 33,9c-11.16-17. João 2,13-22.
DEDICAÇÃO DA BASÍLICA SÃO JOÃO DE LATRÃO

            Nos primeiros séculos do cristianismo não havia igrejas para as celebrações. Os cristãos se reuniam pelas casas chamadas domus ecclesiae, isto é, casas da comunidade. Papa, bispos, sacerdotes e celebrações eram simples e diferentes. No ano 313 o imperador Constantino permitiu a religião cristã no império romano. Então se construíram as basílicas para as reuniões do povo e as celebrações. A primeira basílica foi a de S. João de Latrão. O nome Latrão vem de Laterani, nome da família que tinha casa naquele local. Sua casa foi destruída por Nero no ano 60.  Ali foi construindo um palácio em 161. Constantino o deu ao Papa Melquíades. A dedicação da Basílica foi presidida pelo Papa Silvestre I no ano 324, dedicada ao Divino Salvador, mais tarde a S. João Batista. Celebrar a dedicação – consagração de uma Igreja, mais que celebrar a lembranças de uma data de um prédio, é celebrar o nascimento de uma comunidade. Esta basílica é chamada de mãe de todas as igrejas da terra. É a primeira igreja a ser construída. Entramos numa fase nova do cristianismo que passa a ter templos.  Modifica-se muito o estilo de Igreja e perde-se bastante do ensinamento: “adorar a Deus em Espírito e Verdade”. Mas, mesmo com os belos templos de tijolo ou os pobrezinhos de adobe e capim que usei nas aldeias da Angola, o fundamental não pode ser perdido: adorar em espírito e verdade (Jo 3,24).
Purificando o templo
            A cena de Jesus purificando o templo é assustadora.  Até os humildes foram tocados, mas com menos força. Ele amava o templo, coração da fé do povo. Tinha zelo pela casa do Pai, com diz a Escritura: “O zelo por tua casa me consumirá” (Sl 69,10). O povo era explorado no templo que se transformou em uma casa de comércio onde se vendiam os animais para os sacrifícios e trocavam as moedas pela moeda do templo. Esta era pura para ser usada mas também explorada. Jesus faz uma profecia sobre o templo que vai ser destruído e Ele, Messias de Deus, será o novo templo. Nele encontramos Deus. Na Ressurreição Jesus toma o lugar deixando fora todas as outras mediações para o encontro com Deus. As comunidades, simbolizadas pelas igrejas, têm que ser sempre purificadas de todos os males que prejudicam o povo e o relacionamento com Deus. O culto deve ser de doação, de disponibilidade e de serviço humilde, como é o Corpo de Cristo Ressuscitado.
Nascente das águas
            A leitura de Ezequiel nos mostra a água que nasce do templo e aumenta purificando, dando fertilidade e vida. Representa a presença do Senhor no meio do povo. Jesus é a água viva. De seu peito aberto pela lança sai a água e o sangue. Mata nossa sede de Deus e nos alimenta com seu sangue que é vida. A celebração da benção e dedicação da primeira igreja da cristandade leva-nos a fazer memória de nossas comunidades e das pessoas que foram nossos pais na fé. Anima-nos a purificar nossas comunidades e celebrações de tudo o que é impuro, como a falta de amor, a ganância de dinheiro e poder e a exploração do povo. Elas devem ser sinal da Ressurreição. É tempo de purificação.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

IR AO ENCONTRO DA VIDA!


COMEMORAÇÃO DE TODOS FIÉIS DEFUNTOS - FINADOS

 

  O ano litúrgico, em relação a Cristo, tem seu ápice na celebração do mistério pascal durante o tríduo e o tempo pascal. No entanto, o mistério de Cristo ressuscitado deve ser vivido e alimentado no ordinário da experiência humana, pois foi em sua natureza humana que Ele revelou ser o Filho de Deus. Dessa forma, experimentando em sua própria morte a finitude da condição humana, Jesus nos aponta que nossa morte, assumida por Deus, abre para nós a eternidade da salvação.
Meu Redentor está vivo...
A pobreza, a doença e os infortúnios da vida, para o homem do Antigo Testamento, são vistos como mal, cujo ápice encontra-se na morte, que representa o fim de tudo. Esse pressuposto, aliado à perspectiva da retribuição divina, leva as pessoas a ler os sofrimentos na perspectiva da culpa e as alegrias como recompensa pelo bem e fidelidade.
Como falar do sofrimento sem sentido, em que a consciência humana não aponta para alguma culpa? Essa é a questão que o livro de Jó procura refletir. Durante o diálogo que mantém com seus amigos, ele alega sua inocência ante a insistência deles em vê-lo como pecador castigado por seus erros. A pressão que os defensores da retribuição fazem desperta em Jó um sentimento de abandono, que o leva mesmo a fraquejar na esperança, não percebendo no nível da humanidade qualquer indício de piedade ou misericórdia.
Certo de sua inocência, Jó vê a condição humana fadada ao fracasso (pele destruída). É dessa realidade que ele é chamado a dar um salto qualitativo. Permanecer no horizonte humano das compensações significa render-se à fatalidade da morte. Projetando seu olhar para além dos acontecimentos, ele contempla Deus em sua eternidade (ferro, chumbo). Se Deus é o redentor, o resgatador do ser humano, Ele não pode conhecer a morte. Dentro de seu sofrimento, mesmo condicionado pela morte, Jó conclui que o ser humano, abrindo-se para Deus (ver face a face), nele encontrará a resposta para seus sofrimentos. O horizonte de Deus é sempre abertura de vida, nunca de morte. Ver a Deus na carne, então, significa andar na vida iluminado pela esperança da salvação que dele nos vem.
Vem para fora...
No evangelho de João, antecipando sua própria ressurreição, Jesus ressuscita Lázaro (11,41-44) e revela sua missão de salvação. A referência ao tempo (quatro dias), à distância (três quilômetros) e às pessoas dão o colorido fúnebre da realidade: de fato a morte era o fim de Lázaro e, por conseguinte, da segurança de suas irmãs.
Ao anúncio da chegada de Jesus, Marta vai a seu encontro, enquanto Maria permanece sentada. A ressurreição tem de ser experimentada como processo de sair de si e ir ao encontro de quem pode oferecer vida (Cristo). Permanecer sentado é resignar-se à morte e crer que nem Deus poderá superá-la.
Marta desafia Jesus: se estivesses aqui (v. 21). A essa interpelação corresponde a resposta de Jesus — Eu sou a ressurreição e a vida (v. 25- 26). Ou seja, a ressurreição não é algo intangível a ser experimentado num futuro incerto (último dia, v. 22-24). Jesus não estava ausente (três quilômetros). Quem vai ao encontro dele e se abre ao seu amor (amizade), já experimenta a ressurreição.
Lázaro morreu e permanecerá morto se recusar ir ao encontro de Jesus. Na medida de nossa abertura a Cristo, mesmo que conheçamos a morte, nele experimentaremos a eternidade de Deus (v. 25b). Marta dá a premissa básica: a ausência de Deus significa morte — se estivesses aqui... No entanto, a insignificante distância entre Jesus e Lázaro (três quilômetros) a ser transposta não significa que Cristo se faz ausente ou se distancia, mas corresponde à recusa do ser humano de ir ao seu encontro.
Ir ao encontro de Jesus, como Marta, significa deixar-se rnterpelar por ele para chegar à fé. Marta realiza uma profissão de fé (v. 27) semelhante a de Pedro (Mt 16,16), porem vai alem da perspectiva fisico-espacial-estrutural, porque cre que Deus transcende a historia Então, lida na perspectiva da fe, a ressurreição de Lazaro e a nossa ressurreição Jesus, como nosso Redentor vivo, esta sempre a porta de nossos tumulos (sofrimentos, pecados, egoismos, injustiças, doenças morte) a nos convidar para sairmos de la Quem se deixar interpelar e caminhar em sua direção, experimentara a vida.
Nossa ressurreição
A celebração da memoria dos fieis defuntos não significa culto a morte A tradição cristã, ao ter presente a memoria de nossa finitude, quer levar-nos a esperança de nossa vitoria sobre a morte em Cristo Ele é o nosso Redentor que, superando a morte, resgatará da morte todo aquele que crê.
Percebemos, dessa forma, um crescendo no anó litúrgico A centralidade de Cristo e de seu Mistério Pascal culmina para seus seguidores na participação deles em sua eternidade, vivenciada liturgicamente na Festa de Tõdos os Santos e de Cristo Rei. A celebração de finados, portanto, reafirma a presença de Cristo junto aos nossos túmulos (morte física e espiritual), convidando-nos à participação na vida que não fenece, na eternidade, onde Deus será tudo em todos.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

30° DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO A

O NOVO MANDAMENTO DO AMOR  

Ex 22,20-26; SÍ 17; 1Ts 1,5c-10; Mt 22,34.40

 A experiência da precariedade da vida deve levar as pessoas à liberdade do agir. Quem passa pelo sofrimento e pela experiência da dor, deseja libertar-se. Todavia, a libertação só será autêntica se, progredindo na liberdade, a pessoa superar o complexo de vítima e o desejo de revanche, assumindo a postura de solidariedade ante os sofredores e de misericórdia ante o arrependimento de quem erra. A prática da justiça, para quem crê, transita nessas duas bitolas: solidariedade e misericórdia.
Porque misericordioso...
O livro do Êxodo usa o Egito não como entidade espaço-geográfica, mas como categoria teológica. Entendido sob esse prisma, o Egito pode existir mesmo em Israel. Esse elemento aparece com força no texto da liturgia de hoje. Estrangeiro — viúva — órfão são três classes de pessoas cuja situação socioeconômica e política as iguala à situação de Israel no Egito. A opressão a essas pessoas desloca o Egito para Israel. Em consequência, se Deus agiu contra o Egito para libertar Israel, da mesma forma agirá contra Israel para libertar essas pessoas. Essa advertência do texto bÍblico não é uma ameaça a Israel. É um chamado à consciência. Por ter passado pelo sofrimento, Israel é convidado a superar quaisquer formas de opressão e a viver a solidariedade para com aqueles que em seu meio vivem em condições de precariedade.
O texto também faz referência às relações econômicas de empréstimo e penhora de bens. Emerge como objeto de exploração, nessas relações, o pobre que, tanto no caso de empréstimo, como no de penhora de bens, entra por necessidade. A exploração dos pobres por juros ou pela expropriação de seus bens é vista como injustiça. Certamente a referência a esse tipo de relações evidencia uma realidade que ocorria em Israel. Voltando seu olhar para o pobre, Deus lê os fatos a partir de sua condição. Eles não devem ser punidos por sua condição, mas gozarem da misericórdia de quem os socorre. De forma pedagógica, o autor sagrado quer fazer emergir a imagem e a missão de Israel como povo de Deus. É sempre importante ter presente que, para ser povo eleito ou povo de Deus, Israel também tem de escolher Deus e sua justiça, manifestando isso pela misericórdia e pela prática da caridade para com os pobres.
Amarás...
Jesus continua sendo desafiado por seus algozes religiosos. “Perfeitos” no cumprimento da lei, vista como salvadora, os fariseus testam Jesus indagando sobre o maior mandamento. A resposta. de Jesus toca na raiz de todas as práticas da fé. Ele não se baseia na lei, porque ela, como mediação, não tem força de salvação. O que coloca o crente no caminho da salvação é o espírito com que se abre a Deus e coloca em prática os mandamentos.
Resumir os mandamentos no amor a Deus e ao próximo reflete o caráter simples de Deus. Déus  salva por amor, por isso vem ao encontro do ser humano. Nesse sentido, o amor de Deus não é abstrato, mas manifesta-se na comunicação da vida a cada ser vivo e na aproximação dele em relação à humanidade. Dessa forma, podemos afirmar a existência do único e fundamental mandamento do amor. Se Deus nos ama doando-nos a vida e nos salvando, então, amar a Deus significa amar igualmente ao próximo. Não se ama ao próximo porque se ama a Deus. Se o amor ao próximo é a expressão concreta do amor a Deus, não amá-lo significa que-nunca se amou a Deus.
As práticas religiosas têm por finalidade levar à consciência de Deus e de nossa necessidade de amá-lo. Dessa forma, práticas e mentalidades religiosas rápidas em julgar e condenar pessoas, utilizando-se inclusive de violência e de difamação, não passam de um engodo, apresentando uma falsa imagem de Deus. O problema do farisaísmo não é a questão do desejo de Deus, mas o da absolutização de uma imagem de Deus, excluindo todas as outras experiências de fé, sem abertura para a misericórdia e o diálogo. O amor é mandamento único, porque jamais exclui alguém, acolhendo a todos os que se abrem para acolher Deus e o próximo.
Acolher o amor...
A fé manifesta-se como acolhida ao amor de Deus para conosco. Recusar o amor significa voltar para o Egito e permitir que as injustiças e as forças de morte atuem na historia. O verdadeiro amor não e uma ideia abstrata ou sentimento de posse. É atitude de quem vive os valores do Reino como norma de vida. O testemunho de fé transcende fronteiras, porque, enquanto acolhida da Palavra na alegria do Espírito de Jesus, leva a conversão, que e a liberdade em Deus.


 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

26º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A

ELES VOS PRECEDERÃO NO REINO DE DEUS

A liturgia do 26º Domingo do Tempo Comum deixa claro que Deus chama todos os homens e mulheres a empenhar-se na construção desse mundo novo de justiça e de paz que Deus sonhou e que quer propor a todos os homens. Diante da proposta de Deus, nós podemos assumir duas atitudes: ou dizer “sim” a Deus e colaborar com Ele, ou escolher caminhos de egoísmo, de comodismo, de isolamento e demitirmo-nos do compromisso que Deus nos pede. A Palavra de Deus exorta-nos a um compromisso sério e coerente com Deus – um compromisso que signifique um empenho real e exigente na construção de um mundo novo, de justiça, de fraternidade, de paz.

Na primeira leitura, o profeta Ezequiel convida os israelitas exilados na Babilónia a comprometerem-se de forma séria e conseqüente com Deus, sem rodeios, sem evasivas, sem subterfúgios. Cada crente deve tomar consciência das conseqüências do seu compromisso com Deus e viver, com coerência, as implicações práticas da sua adesão a Jahwéh e à Aliança.

O Evangelho diz como se concretiza o compromisso do crente com Deus… O “sim” que Deus nos pede não é uma declaração teórica de boas intenções, sem implicações práticas; mas é um compromisso firme, coerente, sério e exigente com o Reino, com os seus valores, com o seguimento de Jesus Cristo. O verdadeiro crente não é aquele que “dá boa impressão”, que finge respeitar as regras e que tem um comportamento irrepreensível do ponto de vista das convenções sociais; mas é aquele que cumpre na realidade da vida a vontade de Deus.

A segunda leitura apresenta aos cristãos de Filipos (e aos cristãos de todos os tempos e lugares) o exemplo de Cristo: apesar de ser Filho de Deus, Cristo não afirmou com arrogância e orgulho a sua condição divina, mas assumiu a realidade da fragilidade humana, fazendo-se servidor dos homens para nos ensinar a suprema lição do amor, do serviço, da entrega total da vida por amor. Os cristãos são chamados por Deus a seguir Jesus e a viver do mesmo jeito, na entrega total ao Pai e aos seus projetos. 
1ª leituraEzequiel 18,25-28  
Na verdade, os membros do Povo de Deus que estão exilados na Babilónia não podem “sacudir a água do capote” e presumir de justos e inocentes: não há justos e inocentes neste processo, uma vez que todos, sem exceção, são responsáveis por atitudes de infidelidade a Jahwéh e de desrespeito pelos seus mandamentos. Fará algum sentido que os exilados acusem Jahwéh de ser injusto, depois de terem violado sistematicamente a aliança e terem cometido tantos pecados e infidelidades (vers. 25)?

Para além disso, Israel não pode continuar a esconder-se atrás de uma responsabilidade coletiva, que implica todos, mas não responsabiliza ninguém. Chegou a altura de cada membro do Povo de Deus se sentir pessoalmente responsável diante de Deus pelas suas ações e pelos compromissos assumidos no âmbito da Aliança. Cada membro do Povo de Deus tem de descobrir que, quando fizer escolhas erradas e se obstinar nelas, sofrerá as conseqüências; e que quando abandonar os caminhos de egoísmo e de pecado e optar por Deus e pelos seus valores encontrará a vida (vers. 26-28).

Significa isto que o pecado de um membro da comunidade não afeta os outros irmãos, membros da mesma comunidade? É claro que afeta. O pecado introduz sempre elementos de desequilíbrio, de desarmonia, de egoísmo, de ruptura, que atingem todos aqueles que caminham conosco… Mas o que Ezequiel aqui pretende sublinhar é que cada homem ou mulher tem de sentir-se pessoalmente responsável diante de Deus pelas suas opções e pelos seus atos.
Esta superação da mentalidade coletiva, dando lugar à responsabilidade individual, é um dos grandes progressos na história teológica de Israel. Doravante, o Povo aprenderá a reagir em termos individuais e não em termos de massa. Está aberto o caminho para uma Nova Aliança: uma Aliança que não é feita genericamente com uma comunidade, mas uma Aliança pessoal e interior, feita com cada crente. 
2ª leitura Filipenses 2,1-11 
Na primeira parte (vers. 1-5), Paulo, em tom solene, pede aos altivos romanos que constituem a comunidade de Filipos que não se deixem dominar pelo orgulho, pela auto-suficiência, pela vaidade, pela ambição, que só provocam egoísmo e divisão. Recomenda-lhes que vivam unidos, que se amem e que sejam solidários, pois foi isso que Cristo, não só com palavras, mas com a própria vida, ensinou aos seus discípulos.
Na segunda parte (vers. 6-11), Paulo vai referir-se, com mais pormenor, ao exemplo de Cristo. Para apresentar esse exemplo, Paulo recorre, então, ao tal hino litúrgico, que celebrava a “Kenosis” (“despojamento”) de Cristo e a sua exaltação.
Cristo Jesus – nomeado no princípio, no meio e no fim – constitui o motivo do hino. Dado que os Filipenses são cristãos, quer dizer, dado que Cristo é o protótipo a cuja imagem estão configurados, têm a iniludível obrigação de comportar-se como Cristo.
O hino começa por aludir sutilmente ao contraste entre Adão (o homem que reivindicou ser como Deus e lhe desobedeceu – cf. Gn 3,5-22) e Cristo (o Homem Novo que, ao orgulho e revolta de Adão responde com a humildade e a obediência ao Pai). A atitude de Adão trouxe fracasso e morte; a atitude de Jesus trouxe exaltação e vida.
Em traços precisos, o hino define o “despojamento” (“kenosis”) de Cristo: Ele não afirmou com arrogância e orgulho a sua condição divina, mas aceitou fazer-Se homem, assumindo com humildade a condição humana, para servir, para dar a vida, para revelar totalmente aos homens o ser e o amor do Pai. Não deixou de ser Deus; mas aceitou descer até aos homens, fazer-Se servidor dos homens, para garantir vida nova para os homens. Esse “abaixamento” assumiu mesmo foros de escândalo: Ele aceitou uma morte infamante – a morte de cruz – para nos ensinar a suprema lição do serviço, do amor radical, da entrega total da vida.
No entanto, essa entrega completa ao plano do Pai não foi uma perda nem um fracasso: a obediência e entrega de Cristo aos projetos do Pai resultaram em ressurreição e glória. Em conseqüência da sua obediência, do seu amor, da sua entrega, Deus fez d’Ele o “Kyrios” (“Senhor” – nome que, no Antigo Testamento, substituía o nome impronunciável de Deus); e a humanidade inteira (“os céus, a terra e os infernos”) reconhece Jesus como “o senhor” que reina sobre toda a terra e que preside à história.
É óbvio o apelo à humildade, ao desprendimento, ao dom da vida que Paulo faz aos Filipenses e a todos os crentes: o cristão deve ter como exemplo esse Cristo, servo sofredor e humilde, que fez da sua vida um dom a todos; esse caminho não levará ao aniquilamento, mas à glorificação, à vida plena. 
Evangelho Mateus 21,28-32 
A parábola dos dois filhos ilustra duas atitudes diversas diante dos desafios e das propostas de Deus.
O primeiro filho foi convidado pelo pai a trabalhar “na vinha”. A sua primeira resposta foi negativa: “não quero”. No contexto familiar da Palestina do tempo de Jesus, trata-se de uma resposta totalmente reprovável, particularmente porque uma atitude deste tipo ia contra todas as convenções sociais… Enchia um pai de vergonha e punha em causa a sua autoridade diante dos familiares, dos amigos, dos vizinhos. No entanto, este primeiro filho acabou por reconsiderar e por ir trabalhar na vinha (vers. 28-29).
O segundo filho, diante do mesmo convite, respondeu: “vou, sim, senhor”. Deu ao pai uma resposta satisfatória, que não punha em causa a sua autoridade e a sua “honra”. Ficou bem visto diante de todos e todos o consideraram um filho exemplar. No entanto, acabou por não ir trabalhar na vinha (vers. 30).

A questão posta, em seguida, por Jesus, é: “qual dos dois fez a vontade do pai?” A resposta é tão óbvia que os próprios interlocutores de Jesus não têm qualquer receio em dá-la: “o primeiro” (vers. 31).

A parábola ensina que, na perspectiva de Deus, o importante não é quem se comportou bem e não escandalizou os outros; mas, de acordo com a lógica de Deus, o importante é cumprir, realmente, a vontade do pai. Na perspectiva de Deus, não bastam palavras bonitas ou declarações de boas intenções; mas é preciso uma resposta adequada e coerente aos desafios e às propostas do Pai (Deus).

É certo que os fariseus, os sacerdotes, os anciãos do Povo, disseram “sim” a Deus ao aceitar a Lei de Moisés… A sua atitude – como a do filho que disse “sim” e depois não foi trabalhar para a vinha – foi irrepreensível do ponto de vista das convenções sociais; mas, do ponto de vista do cumprimento da vontade de Deus, a sua atitude foi uma mentira, pois recusaram-se a acolher o convite de João à conversão. Em contrapartida, aqueles que, de acordo com o “política e religiosamente correto” disseram “não” (por exemplo, os cobradores de impostos e as prostitutas), cumpriram a vontade do Pai: acolheram o convite de João à conversão e acolheram a proposta do Reino que Jesus veio apresentar (vers. 32).

Lida no contexto do ministério de Jesus, esta parábola dava uma resposta àqueles que O acusavam de acolher os pecadores e os marginais – isto é, aqueles que, de acordo com as “convenções”, disseram não a Deus. Jesus deixa claro que, na perspectiva de Deus, não interessam as convenções externas, mas a atitude interior. O que honra a Deus não é o que cumpre ritos externos e que dá “boa impressão” às massas; mas é o que cumpre a vontade de Deus.
Mais tarde, a comunidade de Mateus leu a mesma parábola numa perspectiva um pouco diversa. Ela serviu para iluminar a recusa do Evangelho por parte dos judeus e o seu acolhimento por parte dos pagãos. Israel seria esse “filho” que aceitou trabalhar na vinha mas, na realidade, não cumpriu a vontade do Pai; os pagãos seriam esse “filho” que, aparentemente, esteve sempre à margem dos projetos do Pai, mas aceitou o Evangelho de Jesus e aderiu ao Reino.